O SETI EXISTE DESDE 1960, MAS AINDA NÃO DETECTAMOS SINAIS EXTRATERRESTRES — O CLIMA ESPACIAL PODE SER UM FATOR
Saiba mais sobre como o clima espacial afeta nossa busca por vida extraterrestre e o que as pesquisas estão planejando fazer a respeito
Até hoje, a NASA confirmou a existência de mais de 6.000 exoplanetas (planetas fora do Sistema Solar), e os cientistas estimam que provavelmente existam bilhões de planetas somente em nossa galáxia. Alguns desses planetas são semelhantes à Terra, onde pode existir água líquida e uma atmosfera capaz de sustentar a vida.
Até agora, porém, não ouvimos um pio sequer de ninguém mais no universo. E não é por falta de tentativas. A busca por inteligência extraterrestre (SETI) está em andamento desde 1960, com o advento do Projeto Ozma, uma tentativa de detectar sinais de rádio extraterrestres. Quase 70 anos depois, ainda não há indicação de que não estejamos sozinhos.
Por que não detectamos nenhum sinal de rádio extraterrestre?
Existem muitas razões possíveis para o silêncio. Talvez civilizações alienígenas estejam sendo cautelosas para manter sua presença em segredo. Ou talvez elas estejam lá fora, mas não sejam avançadas o suficiente para terem tecnologia detectável. Ou talvez sua tecnologia seja tão avançada que não conseguimos reconhecê-la.

Mas agora os pesquisadores têm outra teoria. Talvez os sinais de rádio de outros planetas estejam sendo distorcidos pelo clima espacial. Essa é a ideia por trás de um artigo recente publicado no The Astrophysical Journal por Vishal Gajjar e seus colegas do Instituto SETI, uma organização de pesquisa sem fins lucrativos que busca vida em outros lugares do universo.

Ao procurar sinais de rádio de uma inteligência extraterrestre, os cientistas buscam o que chamam de tecnoassinatura, explicou Gajjal à Discover. Uma tecnoassinatura é algo improvável de ter sido produzido por um processo natural.
“Basicamente, fazemos buscas em todo o espectro eletromagnético”, disse Gajjal.
Os cientistas do SETI procuram particularmente por picos de frequência extremamente acentuados, porque esse tipo de sinal é fácil de distinguir das emissões astrofísicas naturais.
Mas e se essa abordagem estiver deixando algo de fora? A atividade, ou ” clima espacial ” — turbulência de plasma e ventos estelares, por exemplo — na área próxima à estrela de um planeta pode interferir no sinal, espalhando-o por uma faixa de frequência mais ampla.

“Quando você observa por um período limitado de tempo, não parece um sinal estacionário em uma única frequência, mas sim um sinal espalhado por várias frequências”, disse Gajjal.
Em vez de parecerem pontas afiadas, ou agulhas, como ele as chama, elas aparecem como picos mais suaves.
Este estudo sugere que os pesquisadores precisam ajustar sua estratégia de busca. Eles vêm procurando por esses picos estreitos há cerca de 60 anos e não detectaram nada. Mas também não estavam procurando por sinais dispersos.
“Uma das razões pelas quais não percebemos um sinal dessa natureza pode ser porque não estávamos procurando por ele”, disse Gajjal.
Ampliando a Busca por Inteligência Extraterrestre
As estrelas anãs M, que compõem cerca de 75% das estrelas da Via Láctea, são o tipo de estrela com maior probabilidade de apresentar clima espacial que dispersa esses sinais. Elas também são as que têm maior probabilidade de abrigar planetas com vida inteligente.
“Se você quiser apostar em onde é mais provável encontrar vida extraterrestre na Via Láctea, eu provavelmente diria perto de uma estrela anã vermelha“, disse Gajjar.
Se sobreviverem à fase inicial, essas estrelas tornam-se estáveis e podem permanecer assim por um longo período. Um planeta na zona habitável de uma estrela anã vermelha poderia ter um longo período de estabilidade atmosférica durante o qual a vida inteligente poderia evoluir. É por isso que ajustar a estratégia de busca para procurar sinais mais dispersos pode aumentar muito as chances de encontrarmos inteligência extraterrestre mais cedo.

O quanto as chances melhorariam? É difícil dizer, afirmou Gajjal. Mas certamente aumenta as chances de os pesquisadores detectarem um sinal. E embora também seja difícil saber se ou quando encontraremos inteligência extraterrestre, Gajjal acredita que as chances estão ligeiramente a nosso favor, graças aos avanços tecnológicos, particularmente em unidades de processamento gráfico e aprendizado de máquina, que nos ajudam a analisar grandes quantidades de dados com muito mais eficiência.
Encontrar esses sinais de vida seria mais do que uma conquista acadêmica, disse Gajjal. Isso poderia nos fazer valorizar mais uns aos outros. Gajjal ficou comovido com as imagens enviadas pela missão lunar Artemis II.
“Na Terra, nos dividimos com todas essas fronteiras, mas no espaço, nada realmente importa. Somos apenas um grão de poeira, certo? A vida extraterrestre é a mesma coisa. Se você encontrar vida lá fora, todas as nossas diferenças não importam muito”, disse Gajja.
O que é o SETI?
O SETI Institute é uma das principais referências mundiais quando o assunto é a busca por vida inteligente fora da Terra. A sigla SETI vem de Search for Extraterrestrial Intelligence, ou “Busca por Inteligência Extraterrestre”, e resume uma proposta que, embora pareça saída da ficção científica, é conduzida com base em rigor científico e tecnologia avançada.
A ideia central do SETI é relativamente simples: se existem civilizações tecnologicamente desenvolvidas em outros pontos do universo, é possível que elas emitam sinais detectáveis, especialmente na forma de ondas de rádio.
Assim, cientistas utilizam grandes radiotelescópios para “escutar” o espaço profundo, analisando continuamente frequências vindas de estrelas distantes e sistemas planetários. O objetivo é identificar padrões que não possam ser explicados por fenômenos naturais; sinais que apresentem organização, repetição ou características matemáticas que indiquem uma origem inteligente.
Ao longo das décadas, iniciativas ligadas ao SETI evoluíram significativamente. Projetos como o Breakthrough Listen ampliaram a capacidade de observação, analisando bilhões de frequências em diferentes regiões do céu. Já o SETI@home marcou uma fase importante ao permitir que pessoas comuns contribuíssem com o processamento de dados, transformando computadores pessoais em parte de uma rede global de análise científica.
Apesar de todo esse esforço, nenhum sinal de origem extraterrestre foi confirmado até hoje. Ainda assim, alguns eventos permanecem como enigmas, sendo o mais famoso deles o Wow! Signal (Sinal “WOW) captado em 1977, que apresentou características incomuns e jamais voltou a ser detectado. Casos como esse alimentam tanto o interesse científico quanto o imaginário coletivo, mantendo viva a pergunta que move todo o projeto.

Mais do que encontrar uma resposta definitiva, o SETI representa um esforço contínuo para compreender nosso lugar no universo. Ele amplia fronteiras tecnológicas, estimula o desenvolvimento científico e, acima de tudo, reforça uma questão que atravessa gerações: se o cosmos é tão vasto, repleto de bilhões de galáxias e trilhões de planetas, seria plausível que a inteligência seja um fenômeno exclusivo da Terra? É justamente essa dúvida, ainda sem resposta, que mantém o SETI ativo, observando, analisando e aguardando, talvez, o sinal que mudaria para sempre a história da humanidade.

