A CENA QUE QUASE NINGUÉM PERCEBEU NO FILME “DISCLOSURE DAY”

A cena que quase ninguém viu em “DISCLOSURE DAY”: Por que Spielberg esconde Nixon e Jackie Gleason em um necrotério alienígena?

“O público tem o direito de saber sobre extraterrestres.” Esta declaração, feita por Steven Spielberg em diversas entrevistas e debates públicos sobre o fenômeno UFO, ganha um significado especial após o lançamento de O Dia da Revelação. Ainda mais considerando que o próprio diretor argumentou que, após mais de oito décadas de relatos, depoimentos e evidências circunstanciais, sente-se em uma posição muito mais sólida para considerar a possibilidade de uma presença extraterrestre digna de séria atenção.

No entanto, para apreciar o poder de sua “revelação”, é necessário algum conhecimento prévio, pois Spielberg não faz nada sem um motivo.

Entre as imagens hackeadas que o personagem de Daniel Kellner rouba da empresa contratada pelo governo, Wardex, há um segundo e meio que a maioria dos espectadores provavelmente não verá. Uma data sobreposta, um necrotério, duas figuras observando macas com corpos. Qualquer pessoa familiarizada com a ufologia da década de 70 reconhecerá a cena instantaneamente.

A imagem aparece brevemente, sem que nenhum personagem pronuncie um nome. Este é o estilo característico de David Koepp e Spielberg neste filme: espalhar referências reais dos arquivos sobre UFOs para que seja o espectador, e não o roteiro, quem as conecte.

A estética remete deliberadamente a uma câmera de segurança dos anos 80: granulação, um registro de data e hora no canto e as etiquetas sobrepostas “HOMESTEAD” e “MORGUE”. Na imagem, várias macas com corpos cobertos são visíveis, juntamente com duas figuras de jaleco branco e, ao fundo, um homem de terno escuro cuja silhueta foi comparada online à de Richard Nixon. Um dos presentes usa uma flor na lapela , um gesto que muitos espectadores associam a Jackie Gleason, a estrela de televisão que, por cinco décadas, esteve no centro de um dos rumores mais persistentes — e menos comprovados da ufologia americana.

A lenda que Spielberg decidiu “homenagear”

A história circula em círculos ufológicos desde a década de 1980. Segundo o relato, na noite de 19 de fevereiro de 1973, o presidente Richard Nixon levou seu amigo e parceiro de golfe Jackie Gleason — um comediante de Hollywood e entusiasta de UFOs — a uma área restrita da Base Aérea de Homestead, na Flórida. Lá, Gleason teria visto pequenos corpos não humanos preservados em caixas de vidro, juntamente com os destroços de uma suposta nave acidentada.

Nixon e Gleason eram amigos de golfe.

Gleason morreu em 1987 sem negar ou confirmar publicamente o incidente. Essa ambiguidade, que ele não negou nem ratificou perante um tabelião, é precisamente o que manteve a história viva por mais de quarenta anos, alimentada posteriormente por relatos indiretos, como o do ex-policial da Força Aérea Larry Warren, que afirmou ter ouvido a história do próprio Gleason pouco antes de sua morte.

Na verdade, o ator evitou falar sobre o assunto pelo resto da vida. A história teve origem com sua segunda esposa, Beverly McKittrick, que afirmou que Gleason voltou para casa naquela noite profundamente perturbado e confessou ter visto pequenos cadáveres humanóides preservados em caixas de vidro.

Segundo sua descrição, essas entidades tinham cerca de sessenta centímetros de altura, pele pálida, cabeças desproporcionalmente grandes e olhos enormes. Algumas apresentavam danos compatíveis com um acidente. Ele também relatou ter observado fragmentos de um estranho material metálico associados à nave recuperada.

A versão de McKittrick surgiu em 1983 em uma entrevista exclusiva para o National Enquirer e acabou se tornando um dos episódios mais famosos da mitologia moderna dos UFOs.

A imprensa noticiou que o comediante viu corpos extraterrestres.

Por que Koepp e Spielberg escolheram esta cena?

O próprio David Koepp explicou em entrevistas à imprensa americana que a intenção da equipe não era inventar uma nova mitologia, mas sim construir sobre as imagens de UFOs já existentes e deixar que o espectador preenchesse as lacunas. O roteirista relatou que Spielberg lhe transmitiu a ideia de honrar esse conjunto de lendas, evitando a criação de novos marcos culturais do zero. Segundo Koepp, a filosofia narrativa não é dizer que tudo o que o público já acreditava estava errado, mas sugerir que essas peças díspares — Roswell, Kecksburg, Gleason — poderiam se encaixar em uma única explicação.

Versão cética

Anos atrás, o serviço de verificação de fatos Snopes analisou a agenda do presidente Nixon para 19 de fevereiro de 1973: ela confirma o torneio de golfe com Gleason em Lauderhill, do meio-dia às 12h30, mas não menciona nenhum horário para uma incursão noturna a uma base remota. No entanto, este documento que descobrimos lança dúvidas sobre isso. Eles se deslocaram do 18º buraco até o heliporto. Será que ele poderia ter ido à base?

A única fonte para o episódio continua sendo o relato posterior de Beverly McKittrick, publicado em um tabloide após seu divórcio, sem nenhuma segunda fonte ou testemunha direta para corroborar com os céticos, trata-se de uma lenda urbana clássica: nascida de um único testemunho, sem documentação oficial, e usada por décadas como um conto de advertência sobre o quão pouco confiável pode ser a “memória vazada na história da ufologia”.

Em uma conversa com o astrofísico Neil deGrasse Tyson, Spielberg refletiu sobre um tema recorrente em sua filmografia: o de que certos conhecimentos são reservados a grupos muito pequenos de pessoas, enquanto o resto da sociedade permanece excluído. Essa desigualdade informacional, sugeriu ele, constitui uma injustiça que alimenta algumas das melhores histórias de ficção científica. E é precisamente essa mesma ideia que parece permear “O Dia da Revelação” do início ao fim.

Os outros segredos escondidos nos vídeos extraviados

A sequência em que a imagem aparece faz parte de uma série de gravações confidenciais obtidas pelo personagem Daniel Kellner. Sem entrar em detalhes da trama que possam estragar a experiência do espectador, esses arquivos incluem referências muito familiares para quem acompanha as notícias sobre UAPs (Fenômenos Aéreos Não Identificados).

Entre elas, encontram-se ecos visuais do incidente de Roswell. A recriação de um encontro entre um piloto militar e um enorme objeto triangular força manobras evasivas. Um episódio que vários legisladores americanos afirmaram ter presenciado em sessões confidenciais, e uma sequência espetacular de objetos transmídia emergindo do oceano.

Nenhum desses casos é apresentado como fato comprovado. Spielberg os utiliza como peças de um imaginário coletivo construído ao longo de décadas a partir de rumores, depoimentos, documentos desclassificados e episódios ainda ocultos pelo sigilo governamental.

Será que Spielberg sabe algo que nós desconhecemos?

Essa é a pergunta que assombra o diretor desde a estreia de Contatos Imediatos do Terceiro Grau, em 1977.

Durante décadas, especulou-se que Spielberg mantinha contatos privilegiados com militares, autoridades e indivíduos envolvidos no estudo do fenômeno UFO. Não há evidências públicas que sustentem essas alegações. No entanto, é inegável que poucas figuras capturaram com tanta eficácia as crenças, suspeitas e expectativas do público em relação ao mistério extraterrestre.

Talvez seja por isso que ainda funciona tão bem. Não tenta provar nada. Nem oferece respostas. O que faz é resgatar uma história relegada às margens da cultura popular e trazê-la de volta ao centro da discussão.

Cena final de Contatos Imediatos do Terceiro Tipo, de Spielberg.

O pesquisador espanhol José Antonio Caravaca resume sua impressão sobre o filme da seguinte forma: “Spielberg entrega um filme sólido, sustentado por uma poderosa mensagem subjacente, embora desde o início fique claro que sua única conexão com a nova narrativa dos UAPs (Fenômenos Aéreos Não Identificados) seja o contexto temporal em que se passa e o uso recorrente de teorias da conspiração.”

Talvez aí resida a verdadeira chave para O Dia do Apocalipse. Mais do que simplesmente afirmar que governos estão escondendo extraterrestres, o filme levanta uma questão muito mais perturbadora: o que acontece quando uma sociedade suspeita que certos conhecimentos estão sendo ocultados de uma minoria enquanto o resto permanece deliberadamente na ignorância?

A questão que o filme deixa em aberto não é se Nixon realmente mostrou cadáveres de alienígenas a Jackie Gleason; as evidências disponíveis ainda não sustentam essa afirmação, mas por que um diretor com o histórico de Spielberg escolhe, quadro a quadro, lembrar o espectador de que esse rumor persiste, sem nem mesmo negá-lo ou confirmá-lo? Talvez seja apenas um cineasta perto dos oitenta anos brincando, mais uma vez, com o fascínio que o fenômeno UFO exerce sobre ele desde a infância.

Fonte: Espaciomistério

C. Andrade

Ufólogo, Pesquisador de Campo, Conselheiro e Co-editor do CIFE - Canal Informativo de Fontes/Fenômenos Extraterrestres e Espaciais - Scientific Channel of UFOs Phenomena & Space Research. | Ufologist, Field Investigator, CIFE Co-editor - Scientific Channel of UFOs Phenomena & Space Research.

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